Meirelles e os Copa Cinco:
O Som
'O vigor de quem chega à perfeição'
por Paulo Roberto Pires No. - www.no.com.br [ 24-07-2001 ]

J. T. Meirelles costuma dizer que, quando um músico racionaliza demais a concepção de um arranjo ou de um disco, acaba perdendo não só emoção, mas um certo risco, a incerteza fundamental que faz da música algo que mereça este nome – mas que também não pode abrir mão de uma concepção clara, minimamente organizadora. Parece teoria mas é só uma forma, boa até, de explicar o brilho intenso de “O Som”, primeiro dos dois álbuns que Meirelles gravou com o lendário Copa 5 e que, depois de mais de 30 anos restrito ao circuito de piratas e vinis raros, volta à lojas pela Dubas. Nesta terça (24), uma happy hour no bistrô da Modern Sound – a tradicional loja de discos de Copacabana onde ele toca aos sábados – marca o lançamento do CD e, também, a volta “oficial” de Meirelles à música que ele considera “sua”, ou seja, que leve seu nome em composição, execução e, este caso, remasterização.

Os quase 40 anos que separam a gravação original e a versão em CD só fizeram bem ao disco. “O Som” parece ter sido inventado ontem e muita gente boa que a crítica “técnica” diz estar renovando o jazz não chega nem aos pés do grupo formado por Manoel Gusmão (Baixo), Pedro Paulo (trompete), Luiz Carlos Vinhas (piano), Dom Um Romão (bateria) e, principalmente, seu líder. A mistura que se convencionou chamar “samba-jazz” não só tem aqui um de seus melhores exemplos como pode estar nas estantes do mainstream em qualquer loja do mundo – exatamente pelo equilíbrio entre forma e improviso.

Nos anos 60, os seis temas de “O Som”, todos compostos por Meirelles, logo tornaram-se standards no então ativo circuito instrumental que tinha como centro as boates do Beco das Garrafas. “Quintessência”, que abre o disco, era figurinha fácil em qualquer disco dos inúmeras formações instrumentais que gravavam aos borbotões, estando no repertório tanto do clássico “Edison Machado é Samba Novo” quando do único e excelente disco do desaparecido Zumba Cinco. Aqui, ganha versão ideal para seu criador se espalhar, em balanço em solos excepcionais.

Em notas escritas para o bem cuidadíssimo encarte – que inclui texto original, ficha técnica completa e fotos do acervo do músico – Meirelles explica, didaticamente, o making of de tema por tema: “Solitude” é, segundo ele, uma balada cheia de “monkerismo”; “Contemplação” bebe numa atmosfera “tipicamente Bill Evans” e assim por diante. Há ainda momentos excepcionais em “Nordeste” e na belíssima “Tânia” que, curiosamente, ele define como uma “composição singela”.

“Blue Bottle’s”, homenagem explícita ao templo do Beco, fecha a seleção de originais de “O Som”, que aqui vem acompanhada por três faixas-bônus, todas de “O Novo Som”, o segundo e não menos antológico álbum. A formação dos Copa 5 muda – só Gusmão permanece, recebendo Roberto Menescal (violão), Waltel Branco (guitarra), Eumir Deodato (piano) e Edison Machado (bateria) – e, com ela, o som da banda. A guitarra substitui o trompete e Meirelles passa a pilotar as flautas que são o centro dos arranjos de “Tropical”, gravado em 1967 com a formação batizada “Copa 7”.

“O novo som”, Solo” e “Serelepe” servem como aperitivos para o disco que a Dubas também relança ainda este ano. Além das três, só “Balanço Zona Sul” mostra o Meirelles compositor num álbum que privilegia o arranjador, que veste com sofisticação standards alheios como “Samba do carioca” e “Pensativa” (Clare Fischer), aqui numa versão imbatível, desbragadametne lírica no dueto da flauta com o piano de Eumir Deodato. Mas essa já é outra história, que J. T. Meirelles vai continuar a contar em um álbum inédito que vai vir por aí e tirar de vez de sua música o rótulo de “raridade”.


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